Monte Formoso

 

"Dedicamos este trabalho, em especial, a Fernando Lopes Graça, Michel Giacometti e Zeca Afonso, pela sua contribuição decisiva na vida da Brigada Victor Jara" - que melhor homenagem lhes podia prestar a Brigada se não este belo "Monte Formoso"?


Cinco anos volvidos sobre
"Contraluz", a Brigada ressurgiu com um trabalho soberbo, no qual se define um novo estádio evolutivo importante: o processo de revalorização da música tradicional perfeitamente conseguido num presente que projecta a Brigada para a dimensão da (re)construção permanente, denotando uma abertura inspiração/influência francamente surpreendente. Ousaríamos mesmo afirmar que a escalada deste "monte" corresponde à passagem decisiva da estilização ortodoxa para os domínios universalisantes da estilização heterodoxa. Estamos perante raízes tradicionais definindo já os contornos do que de melhor se faz em termos de música popular portuguesa. Que resposta a Brigada elaborou para todos quantos a pretendiam cristalizada, igual a si própria, movendo-se em círculo, sem capacidade para rebentar os diques e as barreiras erguidas pela miopia dominante! Uma vez mais a provar-se que por trás de todo este movimento está toda uma longa tradição de reflexão e de evolução constantes, que os mais representativos expoentes não deixam de assumir e reafirmar.


"A nossa regra de ouro continua a ser a música tradicional portuguesa, e damos destaque aos instrumentos que preservam bem essa característica. Actualmente, estamos a desenvolver um trabalho significativamente diferente, no sentido de conseguir uma fusão instrumental. Articular instrumentos mais modernos com os tradicionais, mas sem apagar estes últimos.
A Brigada Victor Jara é como se estivesse a começar de novo, mas sem renegar o passado. Encontramos novas soluções para trabalhar a música tradicional portuguesa que não deixa de exprimir uma atitude política: defender a nossa cultura é um acto político. Dos oito elementos que actualmente compõem a banda só três faziam parte da anterior formação. Entraram mais quatro novos elementos e todos nós temos sensibilidades musicais e políticas diversas.

Aurélio Malva, "O Primeiro de Janeiro", Setembro/1989).


"Monte Formoso" vai directamente para o que de melhor se faz, aqui e onde quer que seja, em termos de música enraizado e viva, expressiva e dinâmica, verdadeiramente representativa de um povo. As fontes são puras: Michel Giacometti, Kurt Schíndler e António Joyce. Quem recolhe a água cristalina e a dispõe na forma mais adequada, sabe do ofício: Brigada Victor Jara. Os transportadores do precioso néctar: Arnaldo Carvalho (bateria, caixa, percussões diversas, voz solo, coros), Aurélio Malva (gaita de foles, ponteira, bandolim, guitarra eléctrica, viola, voz solo e coros), José Manuel (viola baixo, coros), Luis Garção (viola, cavaquinhos, viola beiroa, coros), Manuel Rocha (violino, coros), Ricardo Dias (piano, cordas), Rui Curto (acordeão, concertina, coros) e Santos Simões (viola). Destaque para as participações especiais de: Luísa Cruz (voz, solo, em "Faixinha Verde"), Luís Bettencourt (guitarra braguesa, viola baixo e guitarra eléctrica) e Sérgio Mestre (flauta).


As composições que integram este álbum são as seguintes: "Bento Airoso" (popular de Paradela, Mirandela do Douro, com recolha de Michel Giacometti); "Murinheira" (dança transmontana); "Tosquia" (canção de tosquiadores, da Beira Baixa); "Faixinha Verde" (cantiga das malhas, recolhida por Giacometti em Tuiselo, Vinhais, Trás-os-Montes); "Nos Campos da Vila Rica" (romance das malhas de Trás-os-Montes, recolhido por Kurt Schindler, em Tuiselo, Vinhais); "Ei Ia, boi" (canto de aboio, Beira Alta); "Minha Roda 'Sta Parada" (cantiga de rega, recolhida nas margens do Rio Zêzere, por António Joyce).
«Monte Formoso»: a excelência de um trabalho que assume a dimensão de um amor inefável à cultura popular. Fundamental.

Mário Correia


Monte Formoso

1989 - MBP

1996 -Farol (Reedição em CD)